Na sombra do cajueiro.

No balanço da rede o tempo descansa.

terça-feira, 29 de abril de 2008

o sertão virou mar


Se chovia em terra sertaneja,
aflorava a farta vida, e a farta mesa,
promessa a se cumprir.

[não é mais assim]

Homem. Lixo. Devast'ação.

O sertão virou mar.
Seca agora é inundação.

Água levou vida, casa, cadeira
trouxe morte, doença e dor,

o homem destruiu a mata,

e o aquecimento global se anunciou,

o sertanejo* que pedia chuva,
agora luta pra recuperar o que a chuva levou
.



[*Sertanejo. ACIMA DE TUDO UM FORTE. Euclides estava certo.]

sábado, 26 de abril de 2008

Blasé


Cansara da vida louca. Pés calejados, estômago enfastiado, cabelos despenteados, um dos brincos perdido.
A mesa, o copo, as baganas. O último cigarro, nenhum fósforo. O sol já despontava, os ciclistas operários já engarrafavam as ruas. E ela lá, como mais quatro ou cinco notívagos vagabundos além do dono do bar.
Terça-feira, 11 de abril de 1989, nada pra fazer em terra tão remota, tão cansada de tanto repouso. Só destilados, e fermentados de quando em vez, quando se recebia a pensão do mês.
NCz$ 81,40. Passa-se mal, mas inebriada.
Mundo de ilusões bem mais divertido que o real desiludido.
Viveria para sempre assim, até que as mãos fossem entrelaçadas em último suspiro. Viveria sem viver, sem ser. Estando em plano outro apenas percebendo os fatos, as brigas, o enamorar, e os (des)encontros do botequim.
Quem um dia quis encontrá-la, lá estava. Toda’via naquele dia ela cansara. Cansara da vida louca.
Cansara de ser (por opção) louca, cansara da vida.
Pediu que anotassem a conta no caderninho de notas. Cambaleando atravessou a rua já acordada e inquieta.
Ninguém com mais sorte que os alcoolizados.
Do outro lado da rua a enfadada mercearia de S. Luiz.
Reuniu as moedas que sobravam. Veneno para rato, 100 ml de água sanitária, quatro bolinhas de naftalina, e uma lata seca.

Sentou-se na calçada e ali mesmo preparou o derradeiro coquetel.
Cansara da vida, da sobriedade e da loucura. Não queria fazer charme, não tinha (auto) piedade. Não tinha idéias de revolução, nem era depressiva.
Não queria ser um marco, nem era assim tão intempestiva.

Amava seu cachorro, o dono do bar, e sua família.

Sem causa, sem teoria, sem carta, sem canto, tampouco poesia.
Apenas cansara.

Por que não teria direito de cansar?

Solveu fervorosamente todo líquido. Alguns instantes. Algumas convulsões. Um suspiro.
Ali mesmo entrelaçaram seus dedos, medos.

De que agora cansa’ria?

[Que isso fique para teologia.]

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Será que a cor da Saudade o tempo desbota?


De trans'formar já é hora!

terça-feira, 22 de abril de 2008

Moço, venha até mim,
que o melhor da saudade
é nela dar fim.

Ah, a lembrança tua me faz sus'pirar,
delicioso por demais é Amar.



["Já que se tem que sofrer
Seja dor só de amor
Já que se tem que chorar
Seja mais por amor"]

domingo, 20 de abril de 2008


Pairam as folhas secas sobre a calçada,
a menina de sapatinhos vermelhos adora pisá-las.
"creque, creque,"
o gostoso é a sinfonia que se instala,
e vai andando a menina,
reinventando a cantiga que cria enquanto volta para casa.

As folhas despedaçadas viram lixo no saco do Jardineiro,
se vão depois da missão cumprida,
de desfalecer-se entoando poesia.

quinta-feira, 17 de abril de 2008

...e viveram felizes para sempre

e
vive
eram
sem pre
pa
ra
feliz
es
se
rem

e viveram
sempre
para
felizes serem.


sempre serem
viverem felizes

felizes
sempre
viverem
serem
para
felizes
sempre
viverem.

sexta-feira, 11 de abril de 2008

[Pensando sobre o que Pessoa me suspirou por dentre seus versos, compreendi toda incom[a]preensão humana. Assim ele disse, "pensar é estar doente dos olhos". Pensas em teus olhos nesse instante? E se eles estivesse a arder? A dor traz a indiguinação, esta o pensamento, este a transformação,

logo,

Só pisco
quando o cisco cai


...]

Vai que eu vou!

Pisco o olho,

E tudo transmuda,

Tempos outros, instante outro,

Exato inexato instante corrente

Correndo, semeando,

Corrente, rente.

Semente ao tempo levado,

Brotando ao espaço o desmembramento,

Tudo em nada virando tudo

Conexões de moléculas em formas outras, força do pensamento.

Deixo o corpo ir e reinventar seu mundo,

Vai que o dia está pra Aurora,

Vai que eu vou,

E agora é hora.

Vai que vou,

E tudo melhora.

Acomodar-se é assinar a sentença da existência tediosa.

sábado, 5 de abril de 2008

Reencontro

O relógio de parede denunciava o tempo perdido.

Perdido em horas secas, tristes.

Meia-noite.

O controle-remoto cumpre seu papel de inquietação e preguiça. Não pára em um canal.

Nada lhe interessa nada lhe interessaria. Seu corpo já fizera forma no sofá. Tédio.

Levantou-se, foi até o quarto, cada dia mais vazio, vazio de felicidades, e cheio de memórias, o quarto.

Na última gaveta da cômoda, uma pasta azul-marinho. Pegou-a com uma sutileza que nem mais sabia que possuía, posou-a no colo, e com muito espero foi desfazendo os laços.

Contas velhas, registros de imóveis, e algumas cartas.

Dentre elas a de Tereza.

Por onde andará? Pensou o homem que já não pensava.

Não sabia.

Há longos tantos anos, não sabia.

Não sabia nem de Tereza nem de si.

Que longos os dias de horas secas!

Tantos dias de horas tão tristes!

A ausência dela se fez presente em sua memória,

Ali, feito fotografia de áureos tempos outros frente seus olhos.

Passado se fez presente.

A lembrança se fez momento exato.

Tereza, afável como sempre, linda como sempre, amada como sempre. Sempre, porque sempre presente esteve. Como não se lembrar de quem nunca esqueceu?

Tereza com seus olhos de menina, cachecol dourado-de-mar, e sorriso azulado-de-sol

A carta na gaveta nunca aberta.

Não queria sentir o peso do não, Tereza arrumou as malas, de manhã cedo partiu, deixou uma carta sobre o criado-mudo, quase que surdo. Recado não ouviu, nem deu. A carta por si cintilava, amedrontava.

Havia Tereza ido para não voltar?

A carta de Adeus? Nem ousou pensar. Nem pensar, nem abrir.

Posou-a no colo com a sutileza que Tereza lhe ensinara, sem nem saber. Tereza era só Amor, não poderia mais sem ela viver. O preço que se paga pela virtude, é o vício.

Quere-se sempre mais. Mais! Demais, quere-se. Nada é de graça, nada tinha graça.

Abriu a última gaveta da cômoda, uma pasta azul-marinho.

Com muito desespero foi desfazendo os laços.

E ai pôs a carta.

Por um dia, dois meses, três anos, tantos tristes secos longos anos. Ele esperou.

Entre desvendar o segredo que Tereza cochichara na carta, e o medo da perda inesperada, o último pesou mais forte soou. Carta não abriu.

Pesar, dias se arrastando. Tereza nada de voltar.

O relógio na parede denuncia o tempo perdido.

Quis o achado, não mais o perdido.

“Meu bem,

Três meses e uma di’fusão nossa no mundo!

Volto amanhã.

Com amor,

Tereza”

Acidente, um dia depois da carta, corpos cremados, não identificados.

Entre eles o de Tereza que espera cria sua!

O filho que não veio ao céu se fez estrela. Tereza não era mais matéria, só espírito de claridade, e sua presença se fez mais-que-presente na sua saudade, e desde esta hora, ele viu que eram eternidade, e mesmo em planos outros se fizeram Unidade.

terça-feira, 1 de abril de 2008

No fundo, lá no fundo, tudo é tão superficial,
Desconhece-se filosofia, só se lê notícia de Jornal.