Na sombra do cajueiro.

No balanço da rede o tempo descansa.

sábado, 5 de abril de 2008

Reencontro

O relógio de parede denunciava o tempo perdido.

Perdido em horas secas, tristes.

Meia-noite.

O controle-remoto cumpre seu papel de inquietação e preguiça. Não pára em um canal.

Nada lhe interessa nada lhe interessaria. Seu corpo já fizera forma no sofá. Tédio.

Levantou-se, foi até o quarto, cada dia mais vazio, vazio de felicidades, e cheio de memórias, o quarto.

Na última gaveta da cômoda, uma pasta azul-marinho. Pegou-a com uma sutileza que nem mais sabia que possuía, posou-a no colo, e com muito espero foi desfazendo os laços.

Contas velhas, registros de imóveis, e algumas cartas.

Dentre elas a de Tereza.

Por onde andará? Pensou o homem que já não pensava.

Não sabia.

Há longos tantos anos, não sabia.

Não sabia nem de Tereza nem de si.

Que longos os dias de horas secas!

Tantos dias de horas tão tristes!

A ausência dela se fez presente em sua memória,

Ali, feito fotografia de áureos tempos outros frente seus olhos.

Passado se fez presente.

A lembrança se fez momento exato.

Tereza, afável como sempre, linda como sempre, amada como sempre. Sempre, porque sempre presente esteve. Como não se lembrar de quem nunca esqueceu?

Tereza com seus olhos de menina, cachecol dourado-de-mar, e sorriso azulado-de-sol

A carta na gaveta nunca aberta.

Não queria sentir o peso do não, Tereza arrumou as malas, de manhã cedo partiu, deixou uma carta sobre o criado-mudo, quase que surdo. Recado não ouviu, nem deu. A carta por si cintilava, amedrontava.

Havia Tereza ido para não voltar?

A carta de Adeus? Nem ousou pensar. Nem pensar, nem abrir.

Posou-a no colo com a sutileza que Tereza lhe ensinara, sem nem saber. Tereza era só Amor, não poderia mais sem ela viver. O preço que se paga pela virtude, é o vício.

Quere-se sempre mais. Mais! Demais, quere-se. Nada é de graça, nada tinha graça.

Abriu a última gaveta da cômoda, uma pasta azul-marinho.

Com muito desespero foi desfazendo os laços.

E ai pôs a carta.

Por um dia, dois meses, três anos, tantos tristes secos longos anos. Ele esperou.

Entre desvendar o segredo que Tereza cochichara na carta, e o medo da perda inesperada, o último pesou mais forte soou. Carta não abriu.

Pesar, dias se arrastando. Tereza nada de voltar.

O relógio na parede denuncia o tempo perdido.

Quis o achado, não mais o perdido.

“Meu bem,

Três meses e uma di’fusão nossa no mundo!

Volto amanhã.

Com amor,

Tereza”

Acidente, um dia depois da carta, corpos cremados, não identificados.

Entre eles o de Tereza que espera cria sua!

O filho que não veio ao céu se fez estrela. Tereza não era mais matéria, só espírito de claridade, e sua presença se fez mais-que-presente na sua saudade, e desde esta hora, ele viu que eram eternidade, e mesmo em planos outros se fizeram Unidade.

Um comentário:

Anônimo disse...
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