Na sombra do cajueiro.

No balanço da rede o tempo descansa.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Regime Fechado






Atravesso dias longos,


o Tempo me caleja os olhos,


e o Homem os cega.




Caí na tentação de me doar ao outro, a gente corre o risco de não nos ter mais. Corre o risco de perder a vontade nas outras coisas.


É sabor na boca de quero-mais, amor é vício.


Vício que os trocados não compram, vício que não tem na banca de jornal.


A dependência dói.


Dói ainda mais a abstinência.




Hoje o dia me pesa os ombros,


e minhas mãos estão atadas, teria eu como me desprender?




Olho ao espelho e me digo que não quero mais:


-Não quero mais o vício que não se pode ter, só quero depender de mim! Sou eu o sujeito do meu verbo viver!




Essa não é a primeira tentativa, mas nunca tinha mordido a mordaça, cansei de ter pena de mim, cansei de ser tão boa assim.


Que se rompam as grades, que a ventura renasça!


-Amém!




quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

O rapaz do balcão dirigiu-lhe uma grosseria,
não pude decifrar bem o movimentos dos seus lábios, mas pela contração do olhar agressivo, percebi que não se tratava de nenhuma poesia.

Não os conhecia. Interessei-me pela reação da moça e esperei.

Ela poderia se despir em lágrimas, já que o coração estaria sendo agredido.
Ela podia retrucar com palavras quão ásperas aquele insulto desmedido.

Esperei.

A moça fitou serenamente os olhos do rapaz, retirou alguns trocados da carteira, pôs no balcão, e simplesmente se retirou.

Fiquei boquiaberta, pensava eu que assistiria um drama ou um terror, entretanto foi suspense.

Foi então que compreendi, a amargura do rapaz era dele, e não da moça. Não poderia ela sofrer reações de ações que eram dele. Sofreria com suas mágoas, alegraria-se com sua bonança, repito com as SUAS, não as DELE.

A moça não dependia de ninguém pra ser feliz, suas glórias e rancores só estavam vinculados a seus atos, assim é bem mais fácil.

Descompliquemos!

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Do lado de lá

Os picolés não resistiriam por muito tempo,
o dia estava demasiadamente quente,
o isopor velho demais,
E ele?

Nem sabia mais.

Não sabia que dia era aquele.
Que dia seria hoje,
não comprava queijo do reino,
não andava em shoppings,
não colecionava mangar,
vendia picolés em dias quentes,
tinha duas irmãs que não conhecia,
tinha medo de altura,
e não suportava amarelo, por isso perdia a freguesia dos apreciadores de maracujá, manga, e cajá.
Não precisava de muito, não desejava muito, não queria demais.
Não tinha sonhos de riqueza, não lia jornais, não tinha medo de assalto.
Não tinha roupa nova, não tinha aparelho nos dentes, nem vivia em sobressalto.
Não tinha muitas vaidades, temia a Deus, mas não se impressionava com as tais verdades.


Conhecia os segredos do mundo, não perdia uma sexta no trevo, e nem passava vontade.


Que ainda haveria de querer aquele homem de meia idade?
Há outras espécies de vida na cidade.


Observe.
Sirva-se enquanto eles não derretem.

sábado, 7 de fevereiro de 2009

- Bença!
- Deus te dê Felicidade!

Minha mãe desejou-me que meus caminhos fossem serenos, que minha voz fosse mansa, que minha pa[z]ciência não se findasse.

Fez prece, liturgia, e caridade, para que nesta vida nada me faltasse.

Meu pai alertou-me das diversas nuanças deste rio, das imprevisíveis forças do homem, dos amargos delírios das ruas.

Fez poupança, plano de saúde, e pagou faculdade para que nada nessa vida para mim se calasse.

Será que as mãos dos pais guiam nossa realidade?
Seriam infrutíferos os conselhos, os ensinos, as ditas verdades?

Quando os dias se passam, as crias ganham o mundo, e afloram as vaidades.
De muito me valeram as horas de portas trancadas, os olhos inquisitivos, as perguntas encharcadas de sinceridade. O peito se agitava, a alma se tremia, as mãos não escondiam as traquinagens.

Cá estou, já sobrevivi nuanças, forças, delírios.
Nunca fui tão serena, nem minha voz tão mansa, nem tive o dom da pa[z]ciência.
Sem o ontem, não seria hoje. Sem os arranhões não teria vivência.

Que os filhos saibam reconhecer qual o maior legado de suas existências!