Na sombra do cajueiro.

No balanço da rede o tempo descansa.

terça-feira, 20 de julho de 2010

Contos da Previdência II

Já era noite, ela já estava cansada.
Não tinha mais graça na noite, só sono.
8 e meia e se pronunciava o cambaleio.
Era tão bonito o rapaz.
Moreno como o sol poente.
Avermelhado. Parecia uma miragem.
O moreno tinha muita disposição. Trabalhava 10h diárias, e ainda aguentava uma sexta de sacanagem.

A moça velha pensava em já estar esclerosada, sua memória vivia de passagem por instantes cuja existência era duvidosa.
Não sabia mais se era lembrança de um fato ou de um devaneio.
Sua memória não só se enchia, como também mandava momentos embora.
Datas. Não lembrava nunca.
Passara o aniversário do neto e ela nem ai.
Três anos como ascendente em segundo grau.
Parecia tão velha essa idéia.
Mas ela não. Insistia em não pensar assim.
Perguntavam se era o filho caçula.
Veja só, como as pessoas são cinicamente agradáveis.
Esquecera de muita coisa, mas não da imprevisibilidade das pessoas que vêm e vão.
Engraçado pensar assim.
Seu novo amor, que ela sentia ser o único e o primeiro, era um rapazote.
Maior de idade, pelo menos.
Era um preconceito social.
Só podia ser por interesse.
Podia ser por tanta coisa. Por que não por amor?
Viúva pensionista tem lá sem agrados.
Tem lá seus encantos aprendidos e ensinados na fila da Previdência.
Ainda arde de paixão. Paixão como todas as outras, como de todos os outros que já se apaixonaram, secou a velha moça.
Não se importava quantos tostões se perdiam nos vícios do enamorado.
O moreno tinha lá seu agrado, tinha lá seu feitiço aprendido e ensinado nos bares do cortiço e nas salas de bate-papo.

sábado, 17 de julho de 2010

Contos da Previdência I

Um dia. Este dia.
Em casa tudo é tão bom.
Sem comprometimentos inadiáveis.
Algumas contas para pagar, passar na banca e comprar revistas e cigarros.
A senhora não tem muito o que fazer.
Não trabalha, é viúva e tem um filho maior de idade.
O filho está noivo. A pensão do falecido é boa.
Não tem maiores preocupações.
As contas, as revistas e o cigarro.
Duas vezes por semana, levar o cachorro ao parque e ir ao mercado.
Há dois meses não vai à academia, disse ao filho que foi um resfriado, mas na verdade foi porque descobriu que seu personal, um meio amante, tinha um namorado.
Pelo menos a dona não tinha por ele apego, era só para abstrair os nove anos de viuvez.
Um dia. Mais um dia em casa.
Ela tem que ir pagar a conta na frutaria, comprar café, queijo e azeitonas.
A doméstica fez a lista.
Ela também tem um encontro com um gato da internet, Moreno22, ela gosta de morenos e de homens mais jovens.
Ela não é feia.
Ela é vaidosa.
Ela é pensionista.
Como combinado com o broto ela vai de amarelo e rosa.
O filho liga, ela vai ser avó.
Avó? Pensa ela.
Tão nova!
Checa o relógio.
Já é hora.
O encontro é às seis.
Não há tempo a perder.
Um dia, este dia.
E ela pensa:
Fora de casa tudo pode acontecer.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Da série Passionais:

De amor adoeço.
e parto.

Metade de um lado,
e a outra perdida.

De amor enlouqueço,
e esqueço a parte que me resta.

De amor, eu me perco,
perco o bom-senso e a urbanidade,
e me arraso na saudade que tem gosto forte.

Tantas vezes desejei a morte.

De amor, me re-ergo,
de amor próprio, quase soberbo.

Recolho a metade que estava caída ao lado,
coloco a parte que me resta no porta-retrato do criado-mudo.

Trato é trato.

Contrato unilateral que não pode ser revestido.
Vestido velho no prego de Drummond, já esquecido.

Acolho a decisão, da qual não cabe recurso.
E emudeço.

É separação. Não tem mais jeito.

Nesta madrugada, sonho com a tranquilidade que espreita os dias felizes, e espero
e o encontro que mereço.

Desta vez desejo sorte.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Do lado de lá

Um dia. Este dia.
Em casa tudo é tão bom.
Sem comprometimentos inadiáveis.
Algumas contas para pagar, passar na banca e comprar revistas e cigarros.
A senhora não tem muito o que fazer.
Não trabalha, é viúva e tem um filho maior de idade.
O filho está noivo. A pensão do falecido é boa.
Não tem maiores preocupações.
As contas, as revistas e o cigarro.
Duas vezes por semana, levar o cachorro ao parque e ir ao mercado.
Há dois meses não vai à academia, disse ao filho que foi um resfriado,
mas foi porque descobriu que seu personal, um meio amante, tinha um namorado.
Pelo menos a dona não tinha por ele apego, era só para abstrair os nove anos de viuvez.
Um dia. Mais um dia em casa.
Ela tem que ir pagar a conta na frutaria, comprar café, queijo e azeitonas.
A doméstica fez a lista.
Ela também tem um encontro com um gato da internet, Moreno22, ela gosta de morenos e de homens mais jovens.
Ela não é feia.
Ela é vaidosa.
Ela é pensionista.
Como combinado com o broto ela vai de amarelo e rosa.
O filho liga, ela vai ser avó.
Avó? Pensa ela.
Tão nova!
Checa o relógio.
Já é hora.
O encontro é às seis.
Não há tempo a perder.
Um dia, este dia.
E ela pensa:
Fora de casa tudo pode acontecer.