Na sombra do cajueiro.

No balanço da rede o tempo descansa.

sábado, 4 de agosto de 2007

oWerDose


Enfadados passageiros esperando a locomoção nas duras cadeiras azuis de madeira cerrada da rodoviária da pequena cidade do interior do distrito de San Rafael do departamento de Mendoza.
Mujeres prenhas andarilhos descalços pedintes magros perros esfomeados mendigos drogados meninos & Ele. Esperando penando na friagem com sono e a perua que não vinha, e a fome aumentando.
Preguiço corpo estendido sobre o cansaço de dias fadigosos trabalhosos tediosos rotineiros que mal deu para pagar as 3 papas fritas e o pão velho e o palermo rojo e o ramón cru e o viño seco. 120 pesos. Todo consumo de uma semana. Além da dormida em um cômodo imundo de um antigo prédio francês em ruínas dividido com mais três. 80 pesos. Carregou caixa enrolou charuto chupou uma bicha magra roubou um velho barbudo. 600 pesos 35 reais e um dólar roído que não valia mais além de uma hérnia e uma dor na coluna. É preciso.
É preciso ganhar o litro de leite, as amantes, as glicoses. E o ônibus nada de chegar.
Foi deixar as bagagens na sala de embarque para viagens internacionais. Parou. Ele. Comprou un pancho e una Quilmes.
Um casal de andinos se aproximou. A gorda mujer de rosto marcado o mirou e com a mão fez um sinal. Lo muchacho magro em um sobressalto pegou a carteira e correu desenfreado. Ele, pobre coitado!
Sem documento, sem um puto furado. “Porra, nunca tinha pensado num assalto!”
Clandestino em terra distante em língua diversa em passos errantes sem regaço abraço laço afago ou afins perdido des_com’pass(ad)o.
Sem carteira assinada sem garantia sem nada nem cachaça nem tabaco nem cevada. Outrora dias de boemia ahora melancólica poesia funesta estiagem.
Duras cadeiras de merda! Desumanizados assentos coluna doendo fechado tempo frio cortante desacostumado corpo de retirante tão friorento. Quanto tormento!
Atraso.
Perdido em pensamentos momentos difusos sem passa-tempo instante fome desalento terra querida tão ao norte e ELE sem sorte sem parentesco sem endereço sem nada entender.


OWERdose. Ficou à mercê.

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