Na sombra do cajueiro.

No balanço da rede o tempo descansa.

sábado, 29 de março de 2008

O’caso da Separ’ação II


Tecida a última palavra não-dita,

Mal’dita palavra que no peito se cala,

O amor que um dia Ele prometeu,

Engasgou-se com o seu Adeus,

E do afago não resta mais nada.


O dito eterno findou,

Mal’dito dia em que acre’ditei

Em juras de amor,

Que não mais ouvirei.

quinta-feira, 27 de março de 2008

O’caso da Separ’ação


De repente já é noite,

De repente meu corpo arde,

Sinto na pele o açoite,

Teus olhos já não me trazem nem poesia, nem arte.


De repente a chuva mansa,

De repente o tempo pára,

De repente o corpo cansa,

De repente tudo se desenlaça,


De repente arrumo as malas,

Não ouso olhar para trás,

Deixo minha coleção de vinis,

E levo a minha paz.


De repente não há mais admiração,

Nem excitação pela carne,

De repente, amor, já é tarde.

quarta-feira, 19 de março de 2008

Mãos re’pousadas sobre a mesa,

O olhar triste se fazia ainda mais perdido,

Domingo, e não havia ido à igreja,

“Mais uma cerveja!”

Nenhum sentido.

“Veja, meu amigo,” falou ao desconhecido da outra mesa,

“... nunca se alcança o que se almeja,

Pois quando o desejo chega,

Ele deixa de ser perseguido,

A humanidade além da soberba,

Tem o mal de ser insastisfeita,

E de só estimar o prometido.”

Sus’pirou.

“Garçom, me dê a derrad’Eira!”.

terça-feira, 18 de março de 2008

O Artista, os especta’dores e o Semáforo


Rolava as chamas por entre os dedos e elas iam rodopiando até o alto.

O risco, a fascinação do fogo, e a esperança de alguns trocados faziam seus olhinhos brilharem.

Um, dois, três malabares incandescentes, um farrapo em forma de short, um par de velhas alparcatas já miúdas para os seus pés, um gorro achado de bobo sem casa, nem corte. Sonho nenhum.

Pasta branca, tinta guache, e um batom démodé mascaravam sua face triste, envelhecida pelo sol, e pelo sofrimento. Curtos anos estendidos por longas dores.

Dez segundos e já se alargava a fila de carros e a esperança do velho menino, do perdido despercebido artista.

As chamas continuavam a escapulir dentre seus dedos, a equilibrar-se pela sua destreza, e a rodopiar pelos ares. Perfeito!

O sinal amarelo ligeiramente apontava o verde e a alegria. Primeira marcha, meio-dia, domingo, os carros andam lentos, os motoristas andam lisos ou ricos demais, não há “dinheiro pequeno”. A fervura do céu estonteava almas e corpos, mas era preciso a ele ficar ex’posto para o pão de cada dia conquistar.

Uma loira nervosa que falava ao telefone buzinou para que o menino saísse do meio, um homem gordo fez que nem ou’viu, quatro outros carros com seus vidros escuros, e seus ares refrigerados simplesmente passaram, uma velhinha risonha em um fusquinha verde ofertou-lhe algumas moedas, foi então que o palhaço sorriu.

The, 16.03.08

quinta-feira, 13 de março de 2008

Dia da Criação




Uni’versos (a) o’postos.
Separ’ação.
Contr’adição.
In’versos cenários de quem se põe a pensar,
Ou a ler alguns versos.
Quem busca salvação na poesia,
Que se ponha a rezar,
Pois poesia é inquietação,
É realidade omitida,
Não fantasia,
Não ilusão,
É razão de viver, de durar,
É força que im’pulsiona a criação,
É a motivação que pulsa o verso a desbravar.

Deus cria homem,
Homem vira Deus,
Homem cria poesia,
Poesia vira homem,
Poesia cria Deus.
Deus é Poesia.
E até quem não cria, crê.
Já que basta sentir, não precisa saber.

Nada depois da Separ'ação



Nada como um dia que não venha,
nada como não haver amanhã,
nada como um depois,
como uma noite vilã,
que tirou o meu agora,
um nada,
um tempo que não passa,
a mesma infinda hora,
um nada,
uma noite infinda,
Uma Saudade da Aurora,
Uma chegada que de'mora em mim,
Uma solidão carmim.
Uma lembrança tua que aflora,
sinto tua pele de cetim.

Que s'Urge.

terça-feira, 11 de março de 2008

Na juventude os dias parecem terminar.
Exige-se pressa.
Na velhice os dias terminam.
Exige-se calma.

Quem poderia na humanidade confiar?

Ainda bem que para a Alma não há tempo,
Só experimento!

segunda-feira, 10 de março de 2008

Tempo. Pressa! Pára!


Tempo.
Pressa.
Pára!
Nessa bagunça de idéias, horários, e troços, nada se encontra!
A chave, achei!
Tempo.
Pressa.
Pára!
Nessa bagunça de carrinhos de compra, e rostinhos enfadados, nada se apronta!
10º andar, ainda!
Enfim, chegou.
Um casal discutindo fatos inúteis, dois meninos gordos falando de futebol.
Estacionamento.
Fila.
Tempo.
Pressa.
Pára!
Direita.
Esquerda.
Em frente.
Tempo.
Pressa.
Pára.
A preferencial não é sua.
“Ah, minha vez!”
Tempo.
Pressa.
Pára!
Sinal fechado para desejos, delírios e carros.
Ah!
Que será desse tempo de pressa se ele é retardado?
Tempo.
Pressa.
Acordando às seis dia de sábado.
Chegando às nove pra levar escarro!
Desculpe, doutor, mais esse atraso.