Rolava as chamas por entre os dedos e elas iam rodopiando até o alto.
O risco, a fascinação do fogo, e a esperança de alguns trocados faziam seus olhinhos brilharem.
Um, dois, três malabares incandescentes, um farrapo em forma de short, um par de velhas alparcatas já miúdas para os seus pés, um gorro achado de bobo sem casa, nem corte. Sonho nenhum.
Pasta branca, tinta guache, e um batom démodé mascaravam sua face triste, envelhecida pelo sol, e pelo sofrimento. Curtos anos estendidos por longas dores.
Dez segundos e já se alargava a fila de carros e a esperança do velho menino, do perdido despercebido artista.
As chamas continuavam a escapulir dentre seus dedos, a equilibrar-se pela sua destreza, e a rodopiar pelos ares. Perfeito!
O sinal amarelo ligeiramente apontava o verde e a alegria. Primeira marcha, meio-dia, domingo, os carros andam lentos, os motoristas andam lisos ou ricos demais, não há “dinheiro pequeno”. A fervura do céu estonteava almas e corpos, mas era preciso a ele ficar ex’posto para o pão de cada dia conquistar.
Uma loira nervosa que falava ao telefone buzinou para que o menino saísse do meio, um homem gordo fez que nem ou’viu, quatro outros carros com seus vidros escuros, e seus ares refrigerados simplesmente passaram, uma velhinha risonha em um fusquinha verde ofertou-lhe algumas moedas, foi então que o palhaço sorriu.
The, 16.03.08