Na sombra do cajueiro.

No balanço da rede o tempo descansa.

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Findam-se os amores,
e resta-se o peito.

Que o amargo da solidão,
não sucumba o desejo!


"... O homem que hoje me amar encontrará outro lá dentro... Pois que o mate!"

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Não se iludam, ela não é mortal!


Ela viveu tanto

E com tanta intens’idade

Que teve o particular prazer

De planejar a sua própria ida à eternidade.

Salve, salve aquela que se denominou (sem se limitar) a maior Marginal do teatro brasileiro!

Nossa mais-que-eterna Dercy Gonçalves!

E não se iludam porque ela não é mortal.

sábado, 19 de julho de 2008

Arde a Saudade


Quando as horas passam

e nada faz sentido,

É só sentir que estou contigo.

Isso é o que chamam de Amor,

O mais suave de todos os feitiços,

O que se suspira por ardor.

O mais amargo delírio,

Meu Senhor,

Meu esconderijo.





Como arde a Saudade.

sexta-feira, 18 de julho de 2008

É taca no povo, e “arrôcho” na taca.

A cidade calada presencia o passar do tempo. De-vagar.

Da colina que ergue a Igreja do Rosário avista-se a cruz do morro, e o nome da cidade em pedra na pedra fundida.

De riba da frente da cruz a vista alcança o Leme e a Santa de mãos arqueadas, que só por ser de gesso não se cansa de tanto rogar por terra de tamanha insanidade.

Das escadas infindas do Morro do Leme vê-se a torre de telecomunicações que dá ares de prosperidade tecnológica à pequena cidade velha.

Da torre que ninguém sobe, fora os desvairados suicidas, nada se vê.

Continuo o passeio pela Ruy Barbosa, avenida do movimento urbe. Bares, Points, Postos. As praças vazias perderam o encanto da mocidade. “Só há potó e criança”, advertiu-me a sorrir a moçoila que veio de férias.

O asfalto petrolífero dá lugar aos paralelepípedos coloniais. A Oeiras Nova vira velha em um passo. Literalmente.

Poeticamente. Impossível estar na terrinha e não respirar poesia.

Calada a cidade. Fala-se baixinho, pois cada sussurro dito pode ser ouvido pelas janelas cheias de olhos. Coladinhas umas nas outras as casas vão cochichando o escutado.

De repente o silêncio se cala, fala-se alto, “discute-se” “política”(gem), tudo assim entre aspas. Discutir que nada! Cada qual já tem sua paixão, seu fanatismo, sua irretratável opinião. As ideologias são mesmo poucas. Ganha-se quem paga mais (?!).

Portanto, muito bate-boca, carros e motos de som, zoada insuportável! Foguetes. Chateações. O silêncio se cala. A cidade muda se recolhe entristecida. Será essa a nossa Oeiras dita tão querida?!

Voltando a Poesia, ao cheio de alecrim, às casas coloridas de almas velhas, ao gosto bom das noites frias, à Cruviana...

quinta-feira, 3 de julho de 2008

Miúdo menino, miúdas moedas, e graúdas obrigações.


O menino sentado na calçada do supermercado conta as muitas miúdas moedas.


Na escola das ruas ele aprendeu a matemática dos homens.

Cujo menos se desconhece, e só quere-se mais.

A insatisfação, de quem nunca foi satisfeito, dói e humilha.

Moedas miúdas tornam-se duas notas grandes trocadas na banca de jornal.

Duas de dez.


Por dez minutos o menino que não tinha caderno de figurinhas, fitou a arara vermelha. Arara que valia pães, dois maços de cigarro, leite, um litro de pinga, e dois pacotes de bolachas, arara que custara um dia inteiro de labuta.


Quarenta sapatos bem engraxados, a renda da família, e mais dois galos.

O menino sonhou com a arara vermelha, e por alguns instantes voltara a ser menino.

Um menino pobre cheio de maduras e ricas obrigações.

Recolheu as notas ao bolso, ladrões estavam por toda parte!

Ergueu os olhos, agradeceu a Deus a mais essa dura, todavia abençoada realidade.


E voltou pra casa com o sonho de arara, de um dia voar além da calçada, das moedas, da matemática, dos homens.

Voar além de si. E ele sonha. Pois pra quem a vida não é só uma festa.

A esperança é a única coisa que resta.


terça-feira, 1 de julho de 2008

Garotos de Ipanema





O playboy é filho de gente grande.
Gente da Justiça,
Com seus milhares por mês.
Prestígio e perigo.
O filho querido anda com mais três.
Homens. Guarda-costas.
Segurança Pública velando a classe nobre,
O filho da Justiça.

Boate da Zona Sul, muita fineza e carnaval,
Playboys com suas roupas caras, suas meninas burras, e suas caras de mal.

A ternura o dinheiro não compra, tampouco a sapiência.
Criaturas ainda não evoluídas exalando demência.

Olhares trocados.
Uma ameaça a sua fêmea.
As feras se enraivecem.
E está instalada a confusão, para a alegria geral da retardação.

Murros de cá, cotoveladas de lá.
As aulas de jiu-jitsu almejavam seu fim.

Poderia ter ficado só por ai.
Mas o filho da Justiça possuía seu público segurança.
Seu público segurança militar tinha porte, e tinha arma.
Arma tinha munição, tinha morte.

Um dois tiros pra cima.
Ego tolo se alimentando.
Corriam.

A alegria geral da retardação corria.
Um tiro pra frente.
Um menino que ali se divertia ruiu no chão.
Uma morte, o fim de um filho.
Que não era de gente tão grande.
Filho da Injustiça.
E agora como crer que a Integridade segue adiante?

Padeceu um menino.
Padeceu uma mãe.
Padeceu uma Dignidade.
Quem terá Juízo?
Ordena-se a lei do arbítrio.
E a vida fica a mercê da Militar Bestialidade.
[da pública segurança privada,
que tem por dever resguardar a sociedade.]

...

E as mentiras se tornam cada vez mais verdades.




["..Segurança baleou e matou o estudante Daniel Duque Pittman, 18, na saída de uma boate em Ipanema, zona sul do Rio, no sábado (28). Pittman foi baleado na cabeça pelo policial militar Marcos Parreira, que é segurança da promotora Márcia Velasco e de seu filho Pedro Velasco."]