Na sombra do cajueiro.

No balanço da rede o tempo descansa.

quinta-feira, 3 de julho de 2008

Miúdo menino, miúdas moedas, e graúdas obrigações.


O menino sentado na calçada do supermercado conta as muitas miúdas moedas.


Na escola das ruas ele aprendeu a matemática dos homens.

Cujo menos se desconhece, e só quere-se mais.

A insatisfação, de quem nunca foi satisfeito, dói e humilha.

Moedas miúdas tornam-se duas notas grandes trocadas na banca de jornal.

Duas de dez.


Por dez minutos o menino que não tinha caderno de figurinhas, fitou a arara vermelha. Arara que valia pães, dois maços de cigarro, leite, um litro de pinga, e dois pacotes de bolachas, arara que custara um dia inteiro de labuta.


Quarenta sapatos bem engraxados, a renda da família, e mais dois galos.

O menino sonhou com a arara vermelha, e por alguns instantes voltara a ser menino.

Um menino pobre cheio de maduras e ricas obrigações.

Recolheu as notas ao bolso, ladrões estavam por toda parte!

Ergueu os olhos, agradeceu a Deus a mais essa dura, todavia abençoada realidade.


E voltou pra casa com o sonho de arara, de um dia voar além da calçada, das moedas, da matemática, dos homens.

Voar além de si. E ele sonha. Pois pra quem a vida não é só uma festa.

A esperança é a única coisa que resta.


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