
O menino sentado na calçada do supermercado conta as muitas miúdas moedas.
Na escola das ruas ele aprendeu a matemática dos homens.
Cujo menos se desconhece, e só quere-se mais.
A insatisfação, de quem nunca foi satisfeito, dói e humilha.
Moedas miúdas tornam-se duas notas grandes trocadas na banca de jornal.
Duas de dez.
Por dez minutos o menino que não tinha caderno de figurinhas, fitou a arara vermelha. Arara que valia pães, dois maços de cigarro, leite, um litro de pinga, e dois pacotes de bolachas, arara que custara um dia inteiro de labuta.
Quarenta sapatos bem engraxados, a renda da família, e mais dois galos.
O menino sonhou com a arara vermelha, e por alguns instantes voltara a ser menino.
Um menino pobre cheio de maduras e ricas obrigações.
Recolheu as notas ao bolso, ladrões estavam por toda parte!
Ergueu os olhos, agradeceu a Deus a mais essa dura, todavia abençoada realidade.
E voltou pra casa com o sonho de arara, de um dia voar além da calçada, das moedas, da matemática, dos homens.
Voar além de si. E ele sonha. Pois pra quem a vida não é só uma festa.
A esperança é a única coisa que resta.
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