Na sombra do cajueiro.

No balanço da rede o tempo descansa.

sexta-feira, 30 de novembro de 2007

Guerrilha da Sobre’vivência




O batom escarlate aguarda na penteadeira os últimos retoques.

Ela.
Abotoa as sandálias finas,
Adornar-se do longo vestido admirável,
Faz do aprontar um ritual sagrado.

A lua emoldurada na janela convida convoca ao deleite.

Ela.
Respinga no corpo essências de laranjeira,
Coloca os brincos herdados de uma tia rameira.

Armada a mulher vai à guerra,
Em busca da sua caça,
Faminta pela sua presa.

E assim faz do pecado uma ciência,
Já que vaidade é a armadura da sobre’vivência,

quinta-feira, 29 de novembro de 2007

Achados & Perdidos



Perdi a minha boca para os teus beijos,
Perdi os meus braços para o teu abraço,
Perdi minhas noites para tua lembrança,
Perdi minha voz para chamar teu nome.
Perdi-me.
Perdi-te.
Não me destes endereço.
E agora peço que devolva minha boca, meus braços, minhas noites, minha voz, e o teu beijo.
Beijo para que guarde em minha boca,
Abraço para que guarde em meus braços,
Lembrança para que guarde em minhas noites,
Nome teu para que guarde em minha voz.
É o que nunca deixar-me-á perder de nós.

Eu (a)guardo.

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

Crepúsculo Sertanejo


O sol se deita na imensidão do céu,
Pousa no infinito que nosso olhar alcança,
Desdobra-se em nuanças mil,
Do outro lado a lua desponta, embriagando-me com sua calmaria sutil,
Meu olhar se desata, e fio a fio a imensidão do céu desbrava.
Ah, há imagens que não me fazem dizer nenhuma palavra!

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Cena & Sina Dominical





Passa a tarde que repassa
Como todas as outras,
Pousa a tarde que repousa
Como todas as outras.

Será que se cansa a tarde de tanto passar?
Será que se cansa a tarde de tanto repousar?
Como todas as outras?

A cidade emudecida se envolve da tarde dominical,
A cidade serena se revolve como lhe é maquinal,
E tudo se devolve a cena enfadonha e normal,
E a cidade sossega a espera do fim de mais uma tarde.
Como todas as outras.

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

(In)versão de (des)valores


Há mais variação entre o verão e o inverno,
Do que a alfaiataria possa recriar e esboçar,
Mas o povo paga um preço caro,
Afinal já passou a moda do outono passado!


Isso é que imagina essa nova vã filosofia.

terça-feira, 13 de novembro de 2007

O povo se apressa
De’corre o tempo
Só entre um intervalo e outro
É que há contentamento.

segunda-feira, 12 de novembro de 2007



Falam por ai que há encosto pra tudo!
Tem os que fortalecem, os que trazem moléstia, os que prevêem o futuro!
Só sei que algo é certo,
Poeta é bicho que tem corpo aberto!






Carlos,
Quero a palavra tua que me consulta,
que me resume em mundos, que me substitui em sol.
Quero a palavra tua que silenciou meu grito,
que foi meu abrigo, que deu sentido ao que era só letargia...
Quero o saborear de tua poesia!
Bárbara

Canção do Emudecer

Calo a noite em sua calada,
Hoje é dia de gala,
Quero o som do silêncio em todos os salões e salas,
Quero ouvir a orquestra das angelicais harpas,
Tão nobres e tão belas que só são ouvidas no cinema mudo de telas teatrais, que só são vistas quando tudo se cala, e a noite já é madrugada, e o sossego se sobressai.
Então, a voz do emudecer entoa sua canção, e as cortinas se abrem na nossa alma, dando roteiro a nossa missão.
É preciso ouvir o que não se ouve, mas houve e há.

sábado, 10 de novembro de 2007

O negro deixou a malícia escorregar pelos lábios,
Não tinha essa de conversa fora, de ponte, ou de atalho,
Chamou a fêmea de lado e disse,
“Nêga, larga de tolice,
E venha se deitar aqui comigo nessa rede,
Vamos desbravar o mundo dentre quatro paredes, essa é nossa sina!”
E fecharam-se as cortinas.

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

Pétalas circulantes



Flores amarelas pousadas no duro banco cinza de cimento,
Vieram voando lá das copas,
Em espiral, bailando com o vento,
Pairando ao céu em deslumbramento,
Descendo, descendo, até aportar aqui nesse banco de cimento,
No qual também deleitei meu cansado corpo de tormentos,
Fadigado, sem polens, sem vôos, sem ventos!
Foi então que me pus como as florzinhas amarelas,
Senti-me como elas pelo menos naquele instante,
Instante em que fui descendo da copa da árvore como as pétalas circulantes!

quinta-feira, 8 de novembro de 2007


Diga-me, senhores, para que tantos pudores?
Fizeram de Eva pecadora!
Mas todos continuam a viver nus por debaixo das roupas!

quarta-feira, 7 de novembro de 2007


O Tempo do im’Pulso


Fitou pela milésima vez o relógio de pulso.
O atraso assolava seu cerne, as obrigações enlouqueciam suas pernas, os ponteiros inquietavam seus olhos. Mais alguns minutos e ele já podia prevê as irritações do seu chefe, que até ele chegar ao serviço já haveria de ter o chamado de tudo que era sórdido nome.
Demissão?
Não! Dois filhos pra criar, filhos que ele não fizera, mas tinha como seus. Filhos da mulher que se encantara, mas que há dois anos o deixara com os filhos dela que não eram seus. Ele tinha amor por eles, ele era só amor, ele era só para eles.
O relógio no pulso cumpria sua sina, atormentava.
O ônibus parava em tudo que era esquina, só entrava não saia ninguém.
Uma babilônia se erguia naquele coletivo automotor, ouvia-se suspiros voluptuosos, estórias fantásticas de vizinhas despudoradas, um bêbado pedia esmolas, um velho barbudo reclamava da vida... E o tempo nada de demorar, corria feito louco!
Ah, loucos ficariam seus olhinhos de tanto mirar os ponteiros circulantes... Pensava ele que presenciando o passar do Tempo ele poderia acalmá-lo, contando-lhe cenas de amor, vidas prometidas, filhos que não brotaram, faces que enrugaram... tudo por causa dessa sua pressa toda, dessa sua vontade de chegar a algum lugar a todo instante, como se Tempo tivesse Espaço! E Tempo tem lá Espaço?
O Espaço do Tempo, para ele, era aquele relógio de pulso, comprado em seis prestações.
“Pronto, só mais uma parada, e duas voltinhas desse compridinho aqui!”, ele pensou.
Foi então que se anunciou um assalto!
Um louro alto com uma 38 nas mãos intimidava uma quarentona botoxada, e dois meninos e uma moça grávida passavam recolhendo os pertences dos passageiros.
3 min, pronto! A criminalidade estava cada vez mais ágil!
Os assaltantes desceram do ônibus.
Nenhum ferido, dois enfartados, uns 40 relógios, talvez uns R$ 500,00, entre outros pormenores.
Levaram seu relógio de pulso, cinco vales, e R$ 15,00.
Levaram sua agonia?
Ainda mais pobre. Humilhado, mas não demitido. Voltando a pé.
Olhou o pulso, lembrou-se que não havia mais relógio.
Relógio de pulso.
E o pulso ainda pulsava mesmo sem relógio, mesmo sem horas, mesmo sem obrigações!
Foi então que ele sorriu.

segunda-feira, 5 de novembro de 2007


Fria a madrugada agasalha as costelas,
A alvorada se despreguiça por dentre a janela,
Para que em aquarela o dia principie!
Ah, cores tantas que se abrem nessa manhã de novembro!
Quisera eu poder tantas outras vezes, embriagar-me desse deslumbramento,
E sentir essa friagem que nessa terra só se sente essa hora do tempo!
Que sejam insones algumas de minhas noites,
Para que eu deguste mais desse afável momento,
E depois que eu volte a dormir, podendo sonhar com a Aurora, e todo seu encantamento!

sábado, 3 de novembro de 2007

Passei a tarde lendo versos alheios,
Sentindo a presença da solidão dos poetas,
Sentindo com os olhos os olhares que fizeram pulsar poesia,
Passei a tarde toda nessa correria, nessa con’fusão de su’realidades vividas,
Foi então que dei voz ao que sentia, e me pus a escrever tais versos,
Versos esquecidos dentro de mim,
Versos que li em outros versos,
Poetas e poesias que vão e vêm, ins’piração que não tem fim.