Na sombra do cajueiro.

No balanço da rede o tempo descansa.

quarta-feira, 7 de novembro de 2007


O Tempo do im’Pulso


Fitou pela milésima vez o relógio de pulso.
O atraso assolava seu cerne, as obrigações enlouqueciam suas pernas, os ponteiros inquietavam seus olhos. Mais alguns minutos e ele já podia prevê as irritações do seu chefe, que até ele chegar ao serviço já haveria de ter o chamado de tudo que era sórdido nome.
Demissão?
Não! Dois filhos pra criar, filhos que ele não fizera, mas tinha como seus. Filhos da mulher que se encantara, mas que há dois anos o deixara com os filhos dela que não eram seus. Ele tinha amor por eles, ele era só amor, ele era só para eles.
O relógio no pulso cumpria sua sina, atormentava.
O ônibus parava em tudo que era esquina, só entrava não saia ninguém.
Uma babilônia se erguia naquele coletivo automotor, ouvia-se suspiros voluptuosos, estórias fantásticas de vizinhas despudoradas, um bêbado pedia esmolas, um velho barbudo reclamava da vida... E o tempo nada de demorar, corria feito louco!
Ah, loucos ficariam seus olhinhos de tanto mirar os ponteiros circulantes... Pensava ele que presenciando o passar do Tempo ele poderia acalmá-lo, contando-lhe cenas de amor, vidas prometidas, filhos que não brotaram, faces que enrugaram... tudo por causa dessa sua pressa toda, dessa sua vontade de chegar a algum lugar a todo instante, como se Tempo tivesse Espaço! E Tempo tem lá Espaço?
O Espaço do Tempo, para ele, era aquele relógio de pulso, comprado em seis prestações.
“Pronto, só mais uma parada, e duas voltinhas desse compridinho aqui!”, ele pensou.
Foi então que se anunciou um assalto!
Um louro alto com uma 38 nas mãos intimidava uma quarentona botoxada, e dois meninos e uma moça grávida passavam recolhendo os pertences dos passageiros.
3 min, pronto! A criminalidade estava cada vez mais ágil!
Os assaltantes desceram do ônibus.
Nenhum ferido, dois enfartados, uns 40 relógios, talvez uns R$ 500,00, entre outros pormenores.
Levaram seu relógio de pulso, cinco vales, e R$ 15,00.
Levaram sua agonia?
Ainda mais pobre. Humilhado, mas não demitido. Voltando a pé.
Olhou o pulso, lembrou-se que não havia mais relógio.
Relógio de pulso.
E o pulso ainda pulsava mesmo sem relógio, mesmo sem horas, mesmo sem obrigações!
Foi então que ele sorriu.

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